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6. A SUSPENSÃO DO MUNDO
aqui por fora arde e está seco: é o reino do pó e do sol, enquanto no interior do corpo se ouve o correr do sangue, o contínuo deslizar dos fluidos.
cá dentro faz sombra: é como em casa quando se chega, e os refrescos florescem nos centros das mesas, como as jarras garridas nos quadros de matisse, com as persianas entreabertas para a rua.
mas aqui fora as pedras são rugosas, — enquanto por dentro a eternidade prossegue sem asperezas.
os homens suam com orgulho de manipularem o mundo; enquanto por dentro o corpo é feminino, sente-se a si próprio na sua intimidade receptiva.
é nesse jogo de contrastes e complementaridades que se tece o nosso dia-a-dia.
mas a beleza das pedras está precisamente em serem presenças mudas. e a felicidade desta areia, o facto dela ser tão intocada, que um simples passo lhe deixa um rasto para a eternidade.
indecidibilidade do mundo, suspensão do sentido resistindo às pressas do corpo e das perguntas insistentes.
De A Suspensão do Mundo (2003)
envio Carlos Machado (poesia.net)
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